Festa de frutas amazônicas no Mercado Ver-O-Peso, em Belém

O Ver-O-Peso compra e vende mercadorias da Amazônia inteira! Fui para lá com sede de frutas desconhecidas pelo resto do Brasil. Sucos da estação são vendidos frescos em barraquinhas durante o dia e, à noite, é possível comprá-las in natura por preços baixíssimos. É para ir com os sentidos ligados e vontade de experimentar de tudo.

Mal cheguei em Belém e já me aprontei para ir ao famoso mercado, que se estende por 35 mil km² às margens da Baía do Guajará. O movimento era intenso naquela manhã, mas nada especial: o mercado está cheio todos os dias, todas as horas, 24h. Não que as barraquinhas fiquem abertas o tempo todo. Cada setor tem seu horário de alto movimento, sendo que a maioria está ativa no período da manhã. Fui direto pro setor dos sucos, que fica próximo à água, num canto a oeste do mercado. Taperebá, bacuri, pupunha, inajá, biribá, frutas que eu nunca tinha visto, provado nem ouvido falar são vendidas com familiaridade e rapidez por mulheres munidas de gelo e liquidificadores. A área de comidas está cheia e cheira bem, mas eu quero é me fartar de fruta. O dia está ganho depois de experimentar todos os sucos de frutas desconhecidas por mim. Mas é preciso voltar ao mercado durante a noite para o segundo round.

De madrugada, quando a maioria das barracas do Ver-O-Peso está desocupada, começa a dança frenética da Feira do Açaí. Localizada no extremo oeste do Mercado, essa parte tem vida própria e ritmo peculiar, que começa à 1h da manhã aproximadamente. Toneladas de açaí vindo de diversas partes da bacia amazônica são descarregadas de barcos e mais barcos atracados à Baia do Guajará, cada um deles com pressa de chegar e pressa de sair, para dar espaço a outros barcos que levam mais e mais fruta.

Feira-do-Açaí-Belém-do-Pará

Os cestos de plástico, contendo 15 quilos de açaí cada um, são carregados por homens que os levam empilhados sobre a cabeça, de três em três. Haja força no pescoço. Simbora! Dá licença! Ó o pesado!, gritam eles para que eu saia do caminho. Que caminho? Que bagunça! Giro em torno do meu eixo, busco um canto para observar o movimento sem incomodar, me aninho entre pilhas e pilhas de cestos de açaí, mas logo os cestos são vendidos e alguém decide que precisa passar justamente onde estou. Lá vou eu de novo, inebriada pelo movimento da Feira. Vale dizer também que estou com sono, são 5 da manhã e estou virada depois de dançar muito carimbó em outra parte da cidade.

Além do açaí roxinho cuja polpa já é minha conhecida há anos, o raro “açaí branco” (que na verdade é verde mesmo quando está maduro), de sabor diferente do roxo, é vendido como iguaria. E as outras frutas amazônicas dão o ar da graça em cestos de tamanhos diferentes, esporadicamente, no meio da multidão de açaí. Depois de conhecer os gostos das frutas nas barracas de sucos, provo então sua textura. Compro algumas para o lanchinho da madrugada e me lambuzo de Amazônia. As preferidas foram o cupuaçú, tão gorduroso que lembra manteiga, e o biribá, que parece com uma fruta-do-conde gigante, é muito doce e tem textura de nuvem, macio e etéreo.

Para fechar a noite e dormir o sono dos justos, assim que amanhece já dá pra pedir um açaí “do fino” (ralo) para tomar de canudinho. No Pará, ao contrário do resto do Brasil, o açaí dá sono, a conhecida “momó”, preguiça que nos faz deitar na rede depois de uma boa porção da fruta. Não resisto, tombo, o dia vai passar desapercebido por mim. Espero acordar antes da última chuva do dia.

Lívia Aguiar
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